BORIS E OS PIOLHOS: UMA PUNHETA AO TRÓPICO DE CÂNCER

BORIS E OS PIOLHOS

 

Cometi alguns erros por causa da minha primeira leitura do Trópico de Câncer. Foi na altura do Natal, mais ou menos no início desta década: terminei o livro com a sensação de que devia dedicar-lhe algumas palavras, algo que elogiasse o meu recém-descoberto herói e que justificasse, esteticamente, os meus planos hedonistas. Acho que imaginei um Henry Miller de traços vincados, queixo quadrado e cabelo curto e farto, vestido com um sobretudo preto, desvanecendo na neblina vermelha de um cabaret. Um Henry Miller que me inspirou a gastar o dinheiro que recebi no Natal.

Passaram-se quase dez anos desde que gatafunhei um desses meus cadernos com notas sobre o Trópico de Câncer. E comprazo-me por ter perdido o caderno em questão. Seria doloroso olhar para o que escrevi. Para além disso, devo ter relido o livro umas três vezes mais, adicionando camadas de impressões e interpretações. Longínquos são os tempos nos quais o Trópico me vinha à cabeça como um livro sobre sexo. Acho, contudo, que a minha primeira impressão foi proporcional às paixões da minha idade e à cultura literária de quem nunca tinha lido um Orwell ou um Céline.

Não, não tenho a pretensão de convencer ninguém que após a leitura de obras que toda a gente conhece compreendo sumamente o Trópico de Câncer. Nem, muito menos, sugerir que as minhas pulsões juvenis foram substituídas por outras e que, com isso, uma profunda e calma sabedoria foi atingida. Por esta altura, estou apenas convencido que o Trópico não é um livro para ser compreendido. E após ter contemplado umas quantas fotografias do seu autor, privei-me também de lhe atribuir a fotogénica dignidade de um Camus. A voz de Miller, que é a do narrador do Trópico de Câncer, pertence a um homem calvo e pobre, que se viu expatriado numa Paris maquilhada pelas pretensões artísticas da sua azáfama turística. Um homem bem diferente do herói que imaginei na minha primeira leitura – mas, ainda assim, um verdadeiro herói.

Ora, disse eu, há umas linhas atrás, que o Trópico de Câncer não é um livro para ser compreendido. Será isso verdade? Talvez… E digo que talvez porque o seu fim não é uma conclusão lógica do princípio; nenhum conjunto de causalidades parece justificar harmoniosamente a necessidade de que se termine livro enquanto o seu narrador contempla o fluxo do Sena como quem contempla um Eterno Fluxo. A pergunta «Como?» é absolutamente ignorada pelo autor. E é isso que faz do Trópico um livro superior a outros tributos dedicados à Paris dos anos vinte – o Paris é uma Festa consiste num insulto prosaico à prosa de Hemingway, e o Na Penúria em Paris e Londres é, apesar de uma interessante investigação sociológica, uma obra penosamente carente de emoção. Felizmente, Henry Miller não foi um jornalista sério, como Hemingway ou Orwell, e não carregou a cruz de documentar a realidade de uma cidade que foi, simultaneamente, o berço e o cemitério da alta cultura europeia. Miller estava apenas interessado em escrever uma autobiografia. E é certo que, para esse propósito, não nos poupou pormenores acerca da sua vida mental, e que os traços de objectividade são praticamente inexistentes na sua obra – mesmo que, em certos momentos, tenha tido a pretensão de ser objectivo. Mas esta violenta e por vezes trágica afirmação da subjectividade é o que faz do Trópico uma confissão e do seu narrador um amigo.

 

Estou a viver na Villa Borghese. Não há um grão de pó, uma cadeira fora do sítio. Estamos aqui sozinhos e estamos mortos. Na noite passada, o Boris descobriu que tinha piolhos. Tive de lhe rapar as axilas e mesmo assim a comichão não lhe passou. Como é que se pode apanhar piolhos num sítio tão bonito como este? Não interessa. Talvez nunca nos tivéssemos tornado tão íntimos, eu e o Boris, se não tivesse sido por causa dos piolhos.

Assim começa o Trópico. Certeiro e implacável. Pretensioso, também: chamem-me paranoico, mas algo me leva a suspeitar que os «piolhos» que aproximaram Miller e Boris não são apenas piolhos. A pobreza, a sujidade e o desespero coincidem, ao longo do livro, com comoventes demonstrações de empatia e compaixão. Boris é, ao lado de outras almas caídas como Fillmore e Collins, uma amizade fertilizada pela sujidade. Amizades que ecoam a sórdida confraternidade entre o narrador e protagonista do Viagem ao Fim da Noite com Robinson. Sim, a comparação entre a obra-prima de Céline e a obra-prima de Miller é tão óbvia como inevitável. Em ambos os livros deparamo-nos com uma voz que se confessa amoralmente, através de uma cadência arrojada, repleta de elipses e de palavrões. Mas mesmo que muito possa ser dito sobre a relação entre os dois livros, para mim, a comparação pode ficar-se pela óbvia e feliz coincidência das aptidões estilísticas dos seus autores. Apesar das semelhanças ambientais das narrativas e da estreita proximidade cronológica das respectivas datas de publicação, o Henry Miller do Trópico está longe da misantropia schopenhaueriana de Ferdinand Bardamu, o herói de Céline. Há contudo uma agradável coincidência entre o altruísmo frio que Bardamu dedica a Robinson – uma amizade que nasce debaixo das estrelas, num fim-do-mundo húmido e calorento da África Colonial – e a bondade de Miller para com caricaturas humanas como Fillmore. Os trágicos destinos de Bardamu e Robinson cruzam-se e descruzam-se pelos continentes africano, americano e europeu, e separam-se, definitivamente, com a morte Robinson, quando o indicador ciumento da sua ex-mulher prime o gatilho da pistola que lhe rouba a vida durante uma viagem de carro na qual se inclui, naturalmente, o narrador. Bardamu, médico para além de misantropo, tenta, sem sucesso, salvar a vida do amigo; e assim termina a Viagem, enfatizando os tons menores da tragicomédia que é uma vida humana. Já Fillmore, também ele uma vítima do ciúme e da implacável feminilidade da sua mulher, é ajudado por Miller a fugir de Paris e a regressar aos Estados Unidos, deixando ao protagonista uma generosa quantia de francos que, ao contrário do que é acordado, não são entregues à recém-abandonada mulher. O Trópico termina com Miller a contemplar o fluxo do Sena; uma contemplação repleta de duplos e triplos significados que se distanciam do pessimismo céliniano, e que mais se aproximam de uma resiliência estética para com os horrores de todas as épocas. No fundo, um amor fati que vem à superfície de um oceano de caos e terror.

Portanto, Miller não é Bardamu. Mas quem é Henry Miller? Podemos responder a esta questão dispensando um expectável parágrafo dedicado à biografia do autor. Alternativamente, vamos reformulá-la: quem é o protagonista do Trópico? Um americano, um expatriado seduzido pela mentira parisiense, um diletante intelectual com aspirações nietzscheanas, um revisor de provas de um jornal falhado, um homem pobre que vive da caridade alheia, um marido abandonado pela sua vamp, Mona, às sereias que torneiam as mesas dos tabacs. É certo que Miller foi muitas outras coisas e que a sua bibliografia se dedica a ilustrar tudo o que ele foi. Mas esses outros livros não importam. O Trópico sobrevive e prospera sem eles. Para mim, que idolatrei o seu protagonista, foi interessante saber que o livro foi escrito quando o seu autor atravessava a meia-idade; que anos antes de ter emigrado para Paris, tinha sido o coordenador de um departamento de recursos humanos da Western Union, em Nova Iorque; que já ia no seu segundo casamento, com a problemática, hipersexuada e multidimensional June Miller, a quem dedicou muitos dos seus outros trabalhos; que, antes do Trópico, já tinha escrito um livro fracassado durante um período de férias; e que, apesar da afinidade sexual e espiritual com Anaïs Nin e da idolatria por parte dos beats e de Bukowski, Henry Miller foi, até ao fim, um labrego de Brooklyn, que se surpreendia com o seu talento e que se gabava das suas proezas sexuais.

Ó Tania, onde está a tua cona quente, essas ligas grossas e pesadas, essas coxas macias e roliças? Tenho um osso na pila com quinze centímetros. Vou alargar-te os refegos da cona, Tania, grávida com a minha semente. Voltas para casa para o teu Sylvester com uma dor na barriga e com o ventre do avesso. O teu Sylvester! Sim, ele sabe atear o fogo, mas eu sei inflamar uma cona.

Heis um nobre exemplo da típica e deliciosa gabalorice milleriana. E chamo-lhe nobre porque estou certo que sem ela o Trópico ver-se-ia privado de um ingrediente necessário à multidimensionalidade emocional que o permeia. Este narrador humano, demasiado humano, seduz-nos pelos seus vícios e ofusca voluntariamente as suas virtudes – talvez Miller tenha descoberto que um dos elevadores do status é a contra-sinalização da virtude (ele é virtuoso o suficiente para poder desvirtuar-se) … Seja como for, o auto-elogio tempera os encontros sexuais do livro, adicionando-lhes um gosto de comédia e livrando-nos da fastidiosa seriedade que Anaïs Nin conferiu ao seu Delta de Vénus. Incluindo-me no universo daqueles que não simpatizam particularmente com Nin, confesso-me deliciado com a forte suspeita de que essa Tania, sobre a qual Miller escreve, se trata da consagrada escritora. Enquanto roman à clef, o Trópico faz um mau trabalho de preservação do anonimato dos envolvidos – e ainda bem. É certo e sabido que Nin foi uma presença indispensável na vida de Miller, especialmente durante os anos de Paris, e que o ajudou a publicar este livro e que referiu, frequentemente, o seu autor em diários bem mais interessantes do que obras como o Delta de Vénus ou que Uma Espia na Casa do Amor. Apesar de considerar que a obra literária de Nin é, na sua maioria, uma virtuosa exibição de estilo e nada mais, os seus diários dão-nos acesso a um Henry Miller humanizado e inseguro, que sofre de ciúmes e de impotência, e que carece do amor e da presença da sua mulher June. Miller, por outro lado, focou-se bem mais nos momentos nos quais incitou Nin a cometer adultério do que em poetizar a amizade que lhe dedicou. E não há nada de errado com isso. Como leitor, considero-me entretido.

As mulheres de Miller são importantes, isso é inegável. São de facto tão importantes que Miller faz surdir dos encontros sexuais os mais belos e senis devaneios. Um típico devaneio deste género ocorre, sobretudo, após o contacto com uma prostituta. No Trópico as prostitutas são indispensáveis para se divagar sobre a condição humana. São, contudo, demasiadas, essas prostitutas, para que aqui se apresente uma lista das mesmas e uma comparação cuidadosa das suas idiossincrasias. O que é importante notar acerca delas é a notável complexidade psicológica com a qual Miller as retrata comparativamente às personagens masculinas que, no fundo, são quase todas iguais. Mona, a mulher ausente, é a mais importante e complexa de todas as mulheres. Mona é um súcubo invocado pelos passeios solitários do protagonista, pelos planos não concretizados, pelas outras mulheres, e por uma ferida aberta pelo reencontro:

Ela atravessa um mar de rostos e abraça-me, abraça-me apaixonadamente… mil olhos, narizes, dedos, pernas, garrafas, janelas, malas, pires a olhar fixamente para nós e nós abraçados, alheados de tudo. Sento-me ao seu lado e ela fala, um dilúvio de palavras. Um tom louco e consumptivo de histeria, perversão e lepra na sua voz. Não ouço uma única palavra do que diz, porque ela é linda e eu amo-a e agora estou feliz e pronto para morrer.

Miller canta para Tania e dedica odes às prostitutas, mas é por Mona que uiva à lua. E se a ausência de Mona não se fizesse sentir tão violentamente quanto Miller faz questão que se sinta, talvez o meu eu de vinte e dois anos estivesse certo ao inferir que o Trópico de Câncer é um livro sobre sexo, um manual até, um guia turístico amoralizado para todos os debutantes que procuram estetizar os efeitos de uma sobreprodução de testosterona. Mas o Trópico é ainda menos acerca de sexo do que O Amante de Lady Chaterley. Miller está longe de ser um Lawrence. Para Miller, o sexo é um acidente, uma morte e uma ressurreição, uma alteração do ritmo da vida que, numa melopeia de gemidos, cheiros e texturas, nos liberta da linguagem, do raciocínio, e que dilui os nossos egos numa animalidade primordial. Para Lawrence, o sexo tem de ser aprendido; o leitor é presenteado com todos os preliminares mentais dos participantes, e a copulação é como que uma consequência lógica desses preliminares – dos preliminares correctos. Com Lawrence aprendemos o que leva ao sexo – ao bom sexo, até –, mas com Miller tropeçamos nele e deixamo-nos cair.

Apesar de animalesco, Miller também intelectualiza o acto sexual, levando-o muito para além do prazer individual e do diálogo instinctivo entre os amantes. Palavras como «amor», «morte», «cancro» e «Europa» marcam a presença nas verborreias pós-sexo do narrador. Talvez Miller queira lembrar-nos que, após a ejaculação, o fluxo sanguíneo regressa, em toda a sua glória, ao cérebro e o mundo se apresenta aos cinco sentidos com uma outra amplitude. A descompressão sexual convida o narrador a filosofar. Mas Miller não é um filósofo – ou é, pelo menos, um mau filósofo, um pensador cujas ideias carecem de articulação e que simplesmente se dispersam umas das outras, não conduzindo a nenhuma conclusão lógica. Apesar das várias alusões ao nome de Nietzsche, pouco há de nietzscheano nas deambulações filosóficas de Miller. As suas ideias são-nos apresentadas como um torpedear da consciência, numa sucessão de proposições – de proposições interessantes, leia-se – acerca do Grande e Terrível Esquema das Coisas. Portanto, no que diz respeito aos talentos especulativos do narrador, o Trópico de Câncer está longe de nos apresentar a coerência silogística das obras de Lawrence ou a simplicidade aforística de Céline. Henry Miller é portanto um mau filósofo, mas um pensador interessante – isto é, as proposições que fluem na sua consciência possuem riqueza cognitiva, e sucedem-se de forma agradável, estilisticamente agradável. A sua sensibilidade revela-se especialmente apta a denunciar os absurdos da mundividência prosaica, a indagar acerca dos excessos do seu tempo e a inferir as consequências desses excessos sem nos conduzir ao pessimismo e ao fatalismo. A sua atitude é a de um constante sim! a tudo o que se lhe apresenta. Um amor fati, como foi referido mais atrás, que reifica a ética nietzscheana. Um sim à pobreza, à doença, à sujidade, à morte, à guerra, à solidão. Um sim que não consiste numa legitimação moral do caos e do sofrimento, mas que não os condena, aceitando a sua inevitabilidade como se de um necessitarismo espinosista se tratasse. Não há mundos possíveis, não há mundos melhores; este mundo é o único mundo possível, e o seu fluxo vai usar e abusar de nós conforme é determinado pelas leis invisíveis que o governam. Em última instância, o pensamento escrito de Miller é governado por uma atitude nietzscheana, sem que, por isso, se veja comprometido com o rigor sistemático que (apesar do que por aí se diz) permeia a filosofia de Nietzsche. É talvez justo que não se deixe de notar que o narrador do Trópico e o narrador da Viagem ao Fim da Noite se distinguem fortemente pelo combustível teórico da sua atitude narrativa: o último é conduzido pelo pessimismo de Schopenhauer, nunca deixando de focar os aspectos mais lúgubres da condição humana através de uma cadeia de desilusões, enquanto o primeiro ilustra perfeitamente uma atitude reformatória perante o pessimismo, típica do pensamento tardio de Nietzsche. Ferdinand Bardamu relata-nos uma jornada que começa com o seu alistamento na Primeira Guerra Mundial e que passa por uma experimentação dantesca da vida moderna, esteja essa nas selvas diabólicas de uma África Colonial ou numa linha de montagem da Ford, em Detroit, e que acaba em França, no ponto de partida ao qual o narrador regressa infinitamente mais misantrópico. Mas Miller faz-nos saber que deixou o inferno nova-iorquino pelo inferno parisiense e que não se arrepende da sua decisão, apesar de tecer uma teia de insultos ao desgaste da cultura europeia, à «mentira europeia», e de não esperar mais nada senão que as coisas sejam tão boas ou tão más quanto têm sido.

Paris é como uma puta. Ao longe, parece deslumbrante, mal se pode esperar até tê-la nos braços. E cinco minutos depois, um tipo sente-se vazio, enojado consigo mesmo. Sente-se enganado.

 

A passagem acima não é um insulto à cidade de Paris. Consiste na exaltação de uma idiossincrasia. Um pouco como um elogio aos defeitos de um amante, defeitos que, por alguma razão, passámos a amar. Paris é como Mona: Miller ama-a do fundo das suas entranhas, e apesar de esse amor nunca lhe ser devidamente retribuído o seu amor por ela não se esgota. Talvez isso se trate de uma simples obstinação e talvez Miller seja apenas um doente que percorre as ruas de Paris sem direcção, de estômago vazio, tropeçando em prostitutas com mau hálito e nas beatas que apanha do chão. Mas se assim for, e se isso for errado, Miller não quer estar certo. Miller aspira à vitalidade e condena frequentemente os queixumes dos seus companheiros masculinos acerca de França, da pobreza e das mulheres. Num ambiente de boémios degenerados, o narrador do Trópico de Câncer assemelha-se mais a um médico do que a um artista. Um médico que não prescreve outro tratamento senão o de que se deixe o corpo curar-se a si mesmo. Sem analgésicos nem medicamentos. Henry Miller: um apóstolo da adaptação e um pregador da perseverança. Os seus amigos são de tal forma reduzidos a caricaturas que é compreensível que o leitor procure (e encontre) no narrador vestígios de um sadismo maquilhado. Mas não há qualquer sadismo. Há apenas uma ilustração do eventual fracasso do hedonismo: o hedonista não corre atrás do prazer, apenas foge da dor; os prazeres elevados, que resultam da descompressão das defesas após longos períodos de sofrimento, são-lhe desconhecidos. O hedonista apenas conhece os pequenos prazeres: os confortos da vida moderna. E ao encontrar esta baixeza hedonista nos seus amigos, Miller dedica-lhes as mais cómicas e cruéis caricaturas.

Com tudo isto, tudo o que eu pretendo transmitir é a ideia irrefutável de que o Trópico de Câncer é um livro importante. Uma ideia um tanto trivial, poderia dizer-se. Mas são essas algumas das minhas ideias preferidas. E são também aquelas das quais os tipos mais dados à vida mental facilmente se esquecem. É por isso necessário repeti-las. Ad nauseum se necessário. Um livro como o Trópico habilita-se a várias injustiças: por exemplo, a injustiça de ser caracterizado como misógino e a injustiça ser reduzido a pornografia. A primeira injustiça consiste numa desvirtuação moral, e a segunda numa desvirtuação estilística. E ambas são injustiças, nem que seja pela ofensa que dirigem ao meu bom gosto. O Trópico é misógino? Não. Pelo menos, eu não acredito que um tratamento caricato e sexualizado da figura feminina seja equivalente a declarar-se uma superioridade biológica dos homens em relação às mulheres – e acredito que o autor do livro pensaria da mesma forma; contudo, o conceito de misoginia tem sido, especialmente na última década, alargado ao ponto da insignificância… Será, portanto, um livro pornográfico? Não. Um livro pornográfico terá certamente o objectivo de excitar os seus leitores. E mesmo que Miller tenha tido esse propósito numa ou noutra passagem do Trópico, parece-me muito difícil constatar que foi universalmente bem-sucedido e que, mesmo que o fosse, se poderia reduzir a obra a um produto de pornografia. Nem os livros do Marquês de Sade, cujos propósitos se prolongam muito para além da excitação intelectual, poderiam ser reduzidos a obras pornográficas – o propósito de Sade parecia apontar mais para a iconoclastia do que para a pornografia. Para além disso, fosse eu um apreciador de pornografia literária acerca de prostitutas com dentes podres, poderia ainda defender a ideia de que há boa e má pornografia e de que o Trópico de Câncer se trata de pornografia brilhantemente escrita.

Há ainda uma importante dívida cultural para com este livro. Devemos-lhe (a ele e a muitos outros) a dádiva de podermos ler e escrever sobre o que é sujo, feio e sórdido, empregando uma linguagem, também ela, feia, suja e sórdida. Produzam-se boas ou más obras, o importante é podermos fazê-lo. Kerouac, Burroughs, Hunter. S. Thompson, Bukowski – especialmente Bukowski –, não teriam sido possíveis sem a petulância de Henry Miller. Estes e muitos outros, obviamente. E para ser sincero, talvez demasiado, o melhor efeito que um livro como o Trópico pode ter não é o de dar origem a outros bons livros, mas o de nos ensinar qualquer coisa, aliciando-nos a cometer erros. Como eu, por exemplo, quando, naquele Natal que referi no início deste ensaio, aprendi a importante lição de que prostitutas não fazem super-homens (e a de que talvez eu não fosse o melhor interprete de Nietzsche debaixo do sol…). E hoje em dia, anos após a minha primeira e desajeitada leitura do Trópico, consigo ainda mergulhar numa passagem da sua primeira página e regressar à superfície com a sensação de que ar poluído que respiro me é tão indispensável como água:

O Boris acabou de me fazer um resumo das suas opiniões. É um profeta do tempo. O tempo vai continuar mau, disse ele. Haverá mais calamidades, mais morte, mais desespero. Não qualquer sinal de mudança. O cancro do tempo devora-nos. Os nossos heróis mataram-se, ou estão a matar-se. O herói, concluiu-se, não é o tempo, mas sim a Intemporalidade. Temos então de acertar o passo, marchar alinhados em direcção à prisão da morte. Não há qualquer possibilidade de fuga. O tempo não mudará.

— André Fontes

 

 

 

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