LUST FOR LIFE?

Não senti grande coisa ao terminar o Werther. E a culpa não foi do Goethe, mas do calor. Aquele calor da tarde, que acalentava a vida debaixo do sol e atrasava todas as reacções.

Paguei o café e enfiei-me no carro. Surdindo das colunas da aparelhagem, o uivo de uma contralto elevou-se:

Think I’ll miss you forever

like the stars miss the sun in the mornin’ sky

Later’s better than never

Even if you’re gone,

I’m gonna dri-iiive, dri-iiive

Seguiu-se o refrão que me denunciou a autora. Já a tinha ouvido, aqui e ali. E não me dizia grande coisa… É pop, pensava eu – tal como ainda penso. Mas deixei estar e arranquei.

Travei a fundo, logo de seguida, e consegui salvar a dianteira do meu carro. Foi por pouco que um outro carro não a raspou. Ainda assim, buzinei. Eu sou desses, dos que buzina sempre que pode.

– VAI P’RÓ CARALHO! – era para mim.

O outro condutor, imobilizado a dois metros de mim, de pescoço esticado sobre o banco do passageiro, pedia-me uma resposta. E eu estava pronto para disparar. Pousei os incisivos no lábio inferior e arrastei um «Vvvvvvv». Mas a agressão que se devia ter seguido, a explosão daquela sílaba tónica que principiaria um insulto, foi neutralizada pelos tons menores que saiam da aparelhagem. Arrepiado pelo choro dos violinos, desfiz-me em lágrimas. E o desgraçado do outro condutor levou com tudo. Um desgraçado que só teve a humilde intenção de fazer-me saber que sou um absoluto pedaço de merda que não fez pisca nem olhou para trás quando arrancou com o carro.

O que é que causa uma reacção destas? Livros do Goethe, era a minha resposta. Mas agora, quatro verões depois deste incidente, acho que também posso culpar a música. A Lana del Rey tem um talento para glamorizar o choro – especialmente aquele que se deve às relações assimétricas, abusivas, ou, de alguma forma, traumáticas. A culpa não foi só do Goethe, nem daqueles dias de Agosto em que dava por mim às voltas para fugir de uma namorada.

Apesar de a “Summertime Sadness” me ter levado à loucura de empatizar com o jovem Werther – e de eu ter ponderado, por isso, se não existirá algo mais profundo do que o cinismo – tentei manter-me longe do Born to Die. Tratava-se de um álbum que a irmã mais nova tinha na prateleira… E o nome da Lana del Rey, e a imagem da Lana del Rey, faziam-me pensar na Rihanna, ou na Beyoncé, ou em todos os outros nomes e imagens que me mantinham afastado da pop.

Mas fiz concessões. E depois de dar uma oportunidade ao Ultraviolence e ao Honeymoon – também eles saídos da prateleira da minha irmã –, acabei por ouvir o Born to Die. E, para infelicidade minha, o Lust for Life.

É insensato separarmos a música da Lana del Rey da sua imagem. Ela é uma estrela pop. Uma estrela pop que ouviu o seu Lou Reed e que consegue entristecer-nos sem nos deprimir – o que não acontece, infelizmente, com os Joy Division. Passar uma semana a ouvir o Closer é como colocar um pé na cova; experimentem… E é provável que a Lana já o tenha experimentado. Ela apresentou-se desde sempre como devota às grandes obras da Humanidade (como o Closer).

No seu trabalho permeia um universo de referências literárias, musicais e cinematográficas. A “Ultraviolence”, por exemplo, pisca o olho ao Laranja Mecânica e à “He Hit Me (And It Felt Like a Kiss)” das Crystals (perturbadora até nos 60). Os tributos narrativos das suas canções, quase sempre erguidos por uma eloquência sonora, despertaram-me uma fé na pop: Cá está ela, finalmente! pensei, Gira… Triste… Inteligente! Não, não é um Bowie… Mas é uma boa candidata a um!

Eu estava parcialmente certo. A verdade que o ano de 2019 nos apresenta é a de que a Lana del Rey foi um exemplo de graciosidade, de inteligência e de vitalidade que degenerou. Que degenerou, mas que não morreu. Por agora, a Lana está tão morta quanto um Mick Jagger em 71: uma estrela que brilha, mas menos do que há quatro anos.

De qualquer forma, a degeneração é o inevitável destino de uma popstar, ou até mesmo o de uma groupie. Porque, sim, a Lana é uma groupie. Uma groupie que ascendeu do poço da idolatria para nos revelar os segredos do backstage. Pelo menos, foi assim que ela nos conquistou: confessando-nos a dor de viver na sombra de um ídolo, seja esse ídolo um homem ou uma época; mas nunca, ou quase nunca, dando indícios de se ter arrependido, nunca confessando, ou sequer sugerindo, que as coisas deviam ter sido de outra forma – uma melancolia inteligente, sem os menores traços de niilismo.

Isto, claro, até ao Lust For Life…

Pobre Iggy… Quando tu e o Bowie se mudaram para Berlin, para mal-interpretarem Nietzsche e se limparem do que quer que ainda conseguia deixar-vos pedrados, atingiste o ponto alto da tua carreira (a solo) ao abençoares o mundo com o teu Lust For Life – o verdadeiro e legítimo Lust For Life… Um álbum que deu estilo à sobriedade e que tributa os instintos afirmadores da Vida:

I’m worth a million in prizes

Yeah, I’m through with sleeping on the

Sidewalk – no more beatin’ my brains

No more beatin’ my brains

With the liquor and drugs

With the liquor and drugs

Pouco me interessa que o resto da tua carreira a solo seja desinteressante. Agradeço-te pelos Stooges, pelo Lust For Life e pela “Lust For Life”. E acho que a Lana del Rey também te agradece – mas mal.

O pior álbum da Lana, o Lust For Life, abre com a “Love”, uma música que só devia passar num Starbucks, e é seguida de um tributo desonroso que dá pelo mesmo nome do álbum. As vítimas: Iggy Pop e William Ernest Henley:

‘Cause we’re the masters of our own fate

We’re the captains of our own souls

There’s no way for us to come away

‘Cause boy, we’re gold, boy we’re gold

And I was like

E segue-se um:

Take off, take off

Take off all your clothes

Take off, take off,

Take off all your clothes

Invictus obliterado! Oficiais patenteados do exército de stans da Lana del Rey a bombardearem o Twitter com palavras que ela roubou ao pobre William, creditando à sua deusa a coragem de um homem que teve a sua perna amputa e que, ainda assim, se achou no direito de ser mestre do seu destino, capitão da sua alma! Saberá a Lana que comanda um exército de milhões? Eu não acreditaria mesmo que ela mo negasse… O mais grave na sua “Lust For Life” não é a infelicidade de contar com uma participação inócua do The Weekend, nem mesmo o facto de nos narrar o descaramento de dois amantes que sobem ao letreiro de Hollywood para se despirem e serem maus porque têm… luxúria pela vida. O mais horroroso nesta “Lust For Life” é o nome que lhe foi dado. Um nome que já foi exclusivo de um álbum e de uma canção que significaram mesmo alguma coisa.

A “13 Beaches”, a “Cherry” e a “White Mustang” são OK; permeadas por uma repetitividade bem-sucedida, mas temperadas de cansaço. “Summer Bummer”: a Lana tem um affair de Verão com um gangster que quer mais do que manter tudo casual (ft. A$AP Rocky e Playboi Carti). “Groupie Love”: se conhecem a Lana del Rey, já sabem do que se trata (ft. A$AP Rocky). “In My Feelings”: sonicamente interessante, mas as letras são confrangedoras (circulam rumores acerca do destinatário: G-Eazy). “Coachella – Woodstock in My Mind”, “God Bless America – And All the Beautiful Women in It”, “When the World Was at War We Kept Dancing”: ora, três bons exemplos de que um artista se deve afastar do comentário político – Lana, se vais falar-nos da «sociedade» não repitas o que toda a gente diz… “Beautiful People Beautiful Problems”: conseguiste um dueto com a Stevie Nicks, acho que agora és imortal… “Tomorrow Never Came” (ft. Sean Ono Lennon) – repito: Sean… Ono… Lennon.

And I could put on the radio

to our favourite song

Lennon and Yoko,

we would play all day long

“Isn’t life crazy?” I said

Now that I’m singing with Sean

Porquê, Lana? Eu cheguei a pensar em ti enquanto entrava e saía da minha ex-namorada… E fi-lo mais do que uma vez… E eu sei que não o devia ter feito, porque ela até é uma boa pessoa e eu desejo-lhe alguém melhor do que eu… Mas não me faças sentir culpado quando penso nela… Por favor.

A “Tomorrow Never Came” é o momento mais baixo do álbum. Em grande parte, porque fracassa nas suas boas intenções: as de pregar o evangelho do John Lennon, o mais mórbido, incoerente e cansado dos Beatles. Mais ainda: faz rimar, na mesma estrofe, ‘Tropic of Cancer’ com ‘Tiny Dancer’! E se isso não é uma insultuosa subestimação da audiência, eu não sei o que mais se lhe pode chamar… Poderia chamar-lhe inocência, mas a Lana del Rey já deu suficientes provas de não ter nenhuma. Trata-se de arrogância e preguiça, nada mais. Aliás, arrogante e preguiçoso é todo o Lust For Life. As faixas que se seguem à “Tomorrow Never Came” – a “Heroin”, a “Change” e a “Get Free” – estão de tal forma em conformidade com o cansaço e idolatria barata do álbum que, por mais que eu as ouça, não consigo reter nenhuma impressão acerca delas. Sei apenas que a “Get Free” alude à Amy Winehouse e às outras «mulheres sofridas» que inspiram o legado da Lana (meu Deus, sinto-me estúpido só por ter chegado a este ponto da frase…), e que os Radiohead ficaram de tal forma ofendidos com o tributo sónico que lhes foi prestado que levaram o assunto a tribunal – o que foi uma causa perdida, felizmente: o crime da Lana não foi roubo, mas um mau álbum.

E porque é que alguém se daria ao trabalho de escrever, em 2019, acerca de um mau álbum com dois anos? Bem, primeiramente, porque esse mau álbum é creditado a uma artista que não nos tem apresentado senão bons álbuns. Em segundo lugar, porque essa artista denunciou as urgências de uma geração saturada pelo filistinismo (um problema sério), de uma geração virada para trás, não por mero impulso romântico – o romantismo tem sido, precisamente, o que nos conduziu ao niilismo e à “Gucci Gang” –, mas pela urgência de encontrar um classicismo: esteja esse na hegemonia dos três acordes e das pentatónicas ou nas utopias teimosas da segunda metade do século XX. E por último, porque a mensagem que perfila os primeiros três álbuns comerciais da Lana del Rey não é a de que o passado é preferível ao presente, mas a de que as tragédias do passado determinam o presente e que, por isso, não há volta dar: a solução é uma total aceitação do destino.

Já o Lust For Life é sintomático de um cansaço para com a realidade, um retorno às utopias motivado pelo sentimento de que o mundo em que vivemos não é bom o suficiente, e de que um outro mundo invisível, retrospectivo e sonhado é preferível. Instintos abnegadores da Vida trouxeram-nos o Lust For Life, não duvidemos disso.

Mas porque há ainda suficiente decadence em mim (desculpa, Nietzsche, os teus francesismos são deliciosos), faço também questão de voltar ao passado e de reviver o brilhantismo que principiou a carreira da Lana. “Off To The Races”: na minha opinião, o exponente mais trágico na vida daquela ex-Lolita do Born To Die.

My old man is a bad man

but I can’t deny the way he holds my hand

and he grabs me,

he has me by my heart

Percebemos logo que não vai correr bem. Sabemos, pelo resto do álbum, que se trata de uma Lolita é predatória. Sabemo-lo pelas reminiscências da “This Is What Makes Us Girls”, pelo desespero choroso da “Carmen” e pelo apetite materialista da “National Anthem”. Quando chegamos à “Off To The Races, sabemos já demasiado. E a sonoridade mórbida que dá início à melopeia confirma-o.

Quem será portanto esse old man? A narradora chama-lhe «light of my life, fire of my loins». Tratar-se-á, portanto, de um Humbert Humbert autodestrutivo.

And I’m off to the races,

cases of Bacardi chasers

chasin’ me all over town

‘Cause he knows I’m wasted,

facin’ time again at Rikers Island

and I won’t get out

Quem quer que ele seja, parece somente disponível para quem for capaz de acompanhá-lo. Caso contrário não merece o seu tempo. Que não é muito, tanto quanto ele sabe. É um fugitivo, afinal de contas. Do quê? Não sabemos. Talvez nem a narradora saiba, mas está disposta a fugir com ele.

Because I’m crazy, baby,

I need you to come here and save me

I’m your little scarlet, starlet,

singin’ in the garden

Kiss me on my open mouth

ready for you

Que idade tem ela? Provavelmente a mesma que Carmen: dezassete. É ainda possível que pareça mais nova. E é provável que saiba que hipnotiza esse seu homem enquanto dança no jardim. Num jardim que não é um jardim, mas as traseiras do motel onde ele a consome numa cama manchada. O sexo não é mecanicamente extraordinário, mas a distância entre as suas idades dá-lhes tesão suficiente para que se demorem no missionário. Ele delicia-se com a pequena boca que ela lhe abre quando o sente dentro de si. Não, ele não propriamente um homem mau… Mas perdeu qualquer coisa, há muito tempo, algures. Qualquer coisa que o levava a ser bom, ou quase bom. Agora, que a bondade pouco lhe interessa, acende o cigarro que ofereceu à delinquente que todos confundem com a sua filha.

Likes to watch me in the glass room,

bathroom,

Chateau Marmont

slippin’ on my red dress,

puttin’ on my make-up

Glass room, perfume, cognac,

lilac fumes,

says it feels like heaven to him

Ela nunca viu o Sunset Boulevard. Encontrou-a numa piscina pública de Coney Island. Gosta de vê-la existir, simplesmente. Gosta de vê-la olhar para baixo, para as estrelas de Vine Street. Gosta de vê-la apontar para as palmeiras e a descalçar os Adidas antes de molhar os pés na beira-mar de Venice Beach. Consome-a como uma miragem e embebeda-se com a sua juventude. Chega mesmo sentir que a ama e a esquecer-se de que tudo o que os aproxima é um crescendo autodestructivo. Um crescendo que não pode parar. Ele sabe o que se segue se parar: os pais, a polícia, ou a espera, a espera pelo momento em que o destino lhe cobra as transgressões. Há que continuar. Há que dizer adeus a Venice Beach. Há que obriga-la a calçar os Adidas e a voltarem para o carro. De volta à estrada, rumo a sul.

My old man is a thief

and I’m gonna stay and pray with him ’til the end

But I trust in the decision

of the Lord

to watch over us

Take him when he may, if he may

I’m not afraid to say

that I’d die without him

O que ele não sabe é que ela realmente o ama. Não de uma forma que ele compreenda, mas ama-o. É o único homem capaz de fazê-la sentir-se inocente. Vulnerável, por direito. Na sua tenra idade, convenceu-se de que o seu ser é perverso e inconciliável com todos as outros – excepto com o dele.

Finge-se adormecida, no carro. No deserto, a noite estrelada enegrece a figura do seu amante. Espreitando-o, de olhos semi-abertos, não vê senão uma silhueta perfilada pelos raios lunares. O sono persegue-a e apanha-a, finalmente. E ela deixa-se levar. Porque confia no seu homem. Que é mau homem, mas é o único homem para ela.

And we’re off to the races, places

Ready, set the gate is

down and now we’re goin’ in

To Las Vegas

pay us,

Casino Oasis,

Honey, it is time to spin

Ela contempla-o na infinitude de um momento. Nunca o viu tão sério: cigarro a pender dos lábios, cinza sobre a alcatifa. A roleta gira: sai o preto. E ele continua sério. Afaga-lhe o ombro, diz-lhe que vai dar uma volta e ele responde-lhe com um aceno. Afasta-se da roleta, deixando-o. Perdendo-se no caos do casino. Os contrastes do sítio desorientam-na, mas não a assustam. O tempo passa e ela olha em redor, tentando dar com o lugar onde o deixou. E se nunca der com a roleta? Desconsiderando a hipótese, continua à procura. Segue-se uma elipse. E a conclusão é:

You are my one true love,

You are my one true love

Como acontece na “Summertime Sadness” a música finda com o choro dos violinos. E se melodia nos comunicar alguma coisa, é a de que tudo correu mal. A narrativa decorre no presente, mas como o Born To Die é um álbum coerente, podemos inferir que se trata de uma recordação. A recordação de um amor mórbido, revivida sem arrependimentos. Em suma: amor fati.

– André Fontes

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