CORAGEM

            Tinha sete anos, o Cláudio, quando se mijou nas calças, à nossa frente. Mijou-se depois ter espetado um soco ao Gonçalo. O Gonçalo estava no terceiro ano e toda a gente tinha medo dele. Ou teve, até àquele dia. O dia em que o Cláudio lhe espetou um soco na cara.

            A professora Céu tinha visto o que aconteceu. Lá de cima, da sala de aula, gritou-nos, com a cabeça fora da janela:

            – ÁI! SEUS DESGRAÇADOS! ESPEREM LÁ, QUE JÁ VÁO VER!

            Era a mãe do Gonçalo, a professora Céu. E como muitas mães, ela era incapaz ver no seu filho um monstro. Para ela, o seu Gonçalinho tinha uns problemas, mas não fazia mal a ninguém. O que era mentira. Era tão mentira, que eu, e o resto dos fracos e oprimidos, terminámos de bom grado o serviço que o Cláudio tinha começado. Pontapeámos o tirano contra a terra batida. Pontapeámo-lo à frente de todo o recreio. E quando a professora Céu nos alcançou, e nos puxou as orelhas, e nos pôs de castigo, deparou-se, horrorizada, com a nossa alegria. A alegria de quem já não teme. O tirano tinha caído. Tudo graças ao Cláudio, que mudou de escola no terceiro ano, mas que não foi esquecido.

            No oitavo ano, foi a Vera; que era mais alta do que as outras e tirava as piores notas. Não era propriamente envergonhada, também. Durante as aulas de Educação Física, vi-a muitas vezes sentada ao colo dos rapazes. De alguns dos rapazes, claro. Os putos fixes.

            Certa tarde, a Vera teve azar.

            – Pá, eu ‘tava apaixonada, ‘tás a ver? – justificou-se, uns anos mais tarde, enquanto me passava um talão da Galp.

            Teve azar no amor. Apaixonou-se pelo Sebas, um dos putos fixes. Éramos uns quantos na casa do Sebas, na tarde em que a Vera mostrou demasiado. Não lhe passou pela cabeça que, do outro lado da conversa de MSN, o Sebas não estivesse sozinho. O amor é cruel, é verdade, e os putos fixes também.

            – Diz-lhe p’ra tirar as cuecas, boy! – sugeriu o Dário, um outro puto fixe.

            A Vera lá tirou as cuecas, mas não se ficou por aí. Talvez empenhada em impressionar o Sebas, mudou a webcam de sítio, e mostrou-lhe mais qualquer coisa. E nós não estávamos preparados para isso.

            – O quê, boy?!Três dedos?! Aquilo já deve ‘tar estragado! – inocente ou não, o Dário deu voz ao que todos pensávamos.

            O dia seguinte não foi fácil para Vera. Quando a vi entrar no pavilhão B, com os olhos inchados e vermelhos, foi óbvio que ela já sabia de tudo. Atravessou corredores de risos e insultos, no caminho para a aula de História. Quando se sentou, lá no fundo da sala, como era seu costume, limpou as lágrimas e olhou de volta para nós, que não tirávamos os olhos dela.

            – O que é?! Querem ver se eu consigo com quatro?!

            Os olhos ardiam-lhe de raiva. Coragem. Aquilo era coragem e as nossas entranhas reconheceram-no. Ninguém disse nada durante a aula. E nós nunca nos calávamos. Grande Vera. Às vezes pergunto-lhe como estão as coisas, quando tenho dinheiro para abastecer na Galp.

            A coragem é como uma coroa. É impossível não reparar nela e dificilmente nos escapa o seu significado. É uma autoridade perante a qual nos curvamos, com um misto de medo e admiração. Reconhecemos no corajoso a capacidade de superar os limites. Tanto os seus como os nossos.

            Talvez por isso, eu nunca tenha merecido o título de corajoso. Nem no meu suposto grande momento, durante a viagem de finalistas.

            Estava eu em Ibiza, a afastar-me do resort, com a Patrícia. A Patrícia era uma amiga. A Patrícia era gira. E a Patrícia tinha vindo comigo para me fazer companhia. Estávamos à procura de cigarros. Parámos num café, a cerca de meio quilómetro do resort. Estava escuro, lá dentro. Cinco, seis homens, no máximo. Não diziam nada, esses homens, mas olhavam muito para nós; para a Patrícia, especialmente. Um deles aproximou-se, sorrindo por debaixo de um bigode queimado.

            – Fiesta?

            Nem eu nem a Patrícia respondemos. Olhámos em volta, para os outros homens, que também sorriam.

            – Con esta? – insistiu o homem do bigode, levando a mão ao baixo ventre.

            A Patrícia aproximou-se de mim e deu-me o braço. De mim: um adolescente pedrado em ácido, que se limitava a olhar e a bater o maço de tabaco que acabara de comprar. Sem saber muito bem o que dizer, sorri. Sorri por um bocado e lá acabei por sair do café, de braço dado com a Patrícia.

Horas mais tarde, junto à piscina do resort, a Patrícia contou a todos o que se tinha passado:

            – O André ficou, simplesmente, a olhar p’ró gajo! Foi, tipo, tão psycho! Deviam de ter visto… O gajo ficou a olhar p’ró André e o André p’ra ele! E depois, viemos só embora!

            Completamente fora de mim, como se nada daquilo fizesse sentido, perguntei:

            – Mas o gajo não ‘tava na boa?

            Eles riram-se, e eu não percebi porquê. Foi preciso encontrar-me sóbrio, num dia já bem distante daquela trip de ácido, para me aperceber do que tinha acontecido. Sim, é possível que eu tenha livrado a Patrícia de uma tragédia que faria a manchete de um jornal. É possível que eu tenha, também, preservado a minha vida. Mas se eu realmente fiz alguma coisa, no momento, não dei conta disso. No momento, a minha consciência estava bem longe de acolher a probabilidade de uma tragédia. O ácido privou-me do medo, ao afastar-me da realidade. E porque eu não tive medo, nenhum mérito me foi reconhecido.

            Naquela mesma noite, a Patrícia acompanhou-me ao quarto. Pediu-me que não tomasse mais ácidos e que fosse dormir. Incapaz de produzir um discurso inteligível, cuspi umas quantas palavras que a fizeram rir e enfiei-me na cama. Preocupada como estava, ela não se foi embora, e passou a noite no meu quarto. Ela numa cama, e eu noutra.

            Ainda hoje, estou convencido de que se me tivesse mijado nas calças eu teria sido o herói da noite, e talvez, até tivesse dormido com a Patrícia, na mesma cama.

— André Fontes

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