MORRE, ACÁCIO

Morre Acácio

 

(I – O Corpo Chega)

 

Dois homens e um menino e o mar;

“Olha!, está morto, plácido e escurecido!”

“Não lhe toques, morreu de paixão,

pode ser que entre o coração e o fígado

ainda lhe reste essa úmbrica infecção.”

 

Dois homens e um menino e o corpo marinho

fluando p’lo azul submarino, subindo e descendo

com a bravada das ondas, admeio escuridão.

É o Acácio — terá morrido pelas açucenas —

tanto as amou que as matou, tão só

que se matou no alto-mar, longe

das flores de amar, de lembrar

um amor que nunca brotou.

 

“Tão pálido, não há rubra de sangue,

não deve ter sofrido muito.”

“O que havia de sofrer, haverá sofrido

bem antes de ter morrido.”

“A candura de amar é como estas ondas,

tão belas… tão erosivas…”

“Que sabes tu de amar, menino?

Que sabes tu de morrer? De sofrer?”

 

E o corpo flutua no silêncio da submissão,

flutua para fora do palco, em caminho de colisão

com o nada.

 

“Amar não é como as ondas, mas como a areia,

milhares de átomos em união numa massa doirada,

milhares de momentos baços, beijos envidraçados,

uns mais suaves, outros, mais afiados…”

 

“Não!, amar é uma coisa só!, é ser!, só ser como se é!

É ver nas galhos das árvores, curvas sinuosas,

ou ver nas palavras de nossos pais aquela crueldade

que de tão certa, tinge as memórias mais carinhosas.

É ser e ser só!, é amar o que se é e o que os outros são.”

 

O corpo dá reentrada, lá fora empurrado p’las ondas

tão bonitas quanto erosivas. Desta vez, com rosácea

na fronte, e sangue nos lábios.

Cabelos negros, olhos nefastos,

dois homens e dois meninos e o mar,

o outrora morto, agora gritava:

“Estão tão fartos e enfartos das palavras, todos errados!,

amor não é mais que morrer, morrer não é mais que amar,

e eu que já vivi os dois lados, digo-vos com toda a alma:

se morrerem por amor, logo serão ressuscitados!”

 

(II – A Loja do Sr. Justino)

 

“For I have known them all already, known them all:

Have known the evenings, mornings, afternoons,

I have measured out my life with coffee spoons;”

 

Vai-se cantando, p’la delícia das manhãs,

um ferro nobre feito de luz e alegria.

Vai-se trauteando sorridente, p’la morte,

sentindo os seus contornos nas sombras

atiradas ao chão p’los parapentes.

 

Eras ordenam os muros, altos e imponentes,

dos pinheiros da Rússia às pedras de Roma;

Um caminho só!, um só que é seguro,

nasce com a Lua, no amarelo dos dentes;

Dois caminhos a mais, apenas só mais dois!,

não te convences deste? Olha para trás, depois

olha em frente, ainda não te convences?

 

Os dias já estão medidos, preparados,

os caminhos já foram todos traçados!

Compramos os dias ao Sr. Justino, todos nós!,

eles vêm fechados numa solução de pós!

 

Sejam contentes, sejam tristes, sejam insanos,

todos os sabores!, todos os dias!, vários planos!

 

 

— As eras muralham as horas, os rios;

E os peixes, dão-se — sombrios,

sombras rodipiando entre si,

tanto que duas são uma,

e uma, é nenhuma.

 

— As eras mergulham nos mares, nas rochas;

Procuram grutas, iluminadas por tochas,

e archotes apagados p’las águas,

afogados nas suas mágoas

de já saberem tanto.

 

“Oiça lá, Sr. Justino, acaso vende o sabor da reissureição?,

ouvi dizer que o Acácio voltou mais vivo que nunca!”

“Rapaz, com os espíritos, tens de ser surdo. O Acácio

não ressuscitou, apenas nunca tinha morrido.”

“Ora, se me mentem! Eu conheço bem os homens e o menino!,

acaso tinham razões que os levassem às margens da mentira?!”

 

Mas dos males de sonhar, nenhum sabor nos livra!

Da serpente prateada trazendo a aurora do dia

ninguém resiste, ninguém se esconde!

Até sem saberem quando ou onde;

Até flutuando sobre longos lagos encravados,

separados dos seus rios por vales gastos.

 

Pelos males do sonho, ninguém se esguia;

Nem a serpente prateada, nem o novo dia;

A aurora vai nascendo, sempre reluzente.

 

(III – O Sal de Acácio)

 

“Acácio!, quero o quarto limpo!”

num rugido que se funde com a ventania;

“Meus adorados lírios, como vos vejo

nas penas das rolas, brancas e suaves;

como vos vejo em delírios nocturnos

onde retumbo em tuas pétalas pálidas.”

E as açucenas — imóveis, perenes;

Paralisadas, contentes, não pedem mais.

“Que infausto fado me fez cair de amores

pelo verde-rosa destas simples flores?”

 

“Acácio!, tens o almoço na mesa!”

num grito mais suspirado que projectado;

“Meus adoráveis lírios, minhas canções,

que existência feroz me trouxe materialidade

para ser digno destas petulosas paixões?

Amanhã, atirar-me-ei das ravinas de Troia,

e serei renascido num lírio branco, como tu.

Prometes guardar a minha memória por perto?

Prometes guardar-me, como eu te prometo?”

E as açucenas — imóveis, perenes;

Olham o Sol com lágrimas de seiva,

sabendo dentro de si, em suas veias,

que lá estarão, até quando ele já não esteja.

 

“Acácio!, passa pela tua Tia, ela tem saudades!”

num barulho distante que já se torna silêncio;

“Que Deus tenha vontade de me entregar

às luzes eternas das flores primaverais,

e que quando morra, seja outro ser,

veja a paz florescer, e nada mais.”

 

O Sr. Justino não mencionou flores

em sua selecção de pós diários;

 

A pele rosada de Acácio perdeu cor

mesmo antes da queda anunciada;

 

As eras e peixes investiam para o segurar,

mas tal a velocidade, que se deram falhados;

 

“O que havia de sofrer, haverá sofrido

bem antes de ter morrido.”

“A candura de amar é como estas ondas,

tão belas… tão erosivas…”

 

E as açucenas — imóveis, perenes;

Numa serenidade que evade os homens,

numa paz tão bela, que só nos consome;

— João Maria

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